PANKADA


Tudo em ordem

Acabei não respondendo os comentários de baixo sobre a mão por preguiça. Achei mais fácil fazer um novo post. Fui ao médico e não tinha nada quebrado, pra variar só lesão parcial dos ligamentos.



Escrito por Pankada às 20h10
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Castigo

Eu tinha medo de crescer. Eu olhava os adultos e não queria ser como eles, eu tinha um puta medo. Não entendia porcaria nenhuma, mas sentia que seria foda. Bem cedo me ensinaram acreditar em Deus, então todos os dias de manhã eu me ajoelhava ao lado da cama e pedia pra Ele não deixar eu virar gente grande. Eu gostava de acordar bem cedo pra poder brincar mais tempo e ficar na rua o dia inteiro. Não fui um bom menino, não tive muitos amigos, suas mães não os deixavam brincar comigo. Geralmente eu ficava sozinho, cheio de raiva, mas eu não entendia isso, eu não sabia o que era raiva. Eu ficava pela rua destruindo as coisas, derrubava os muros das casas dos outros, quebrava suas janelas, riscava seus carros, jogava bombas nas suas garagens e vivia querendo dar porrada em todo mundo, não gostava de ninguém e ninguém gostava de mim e eu achava tudo isso legal, porque eu não entendia nada. E com tudo isso eu acabei causando muitos problemas, principalmente pra minha mãe, que também não entendia nada e a única solução que ela encontrou, era me bater e me deixar trancado num quarto pequeno. Eu ficava tramando um jeito de fugir, mas era quase impossível, porque tinha grades na janela, e eu tinha medo de ser pego e apanhar mais ainda. Então, eu ficava lá a maior parte do meu tempo, com o nariz cheio de ranho escorrendo junto com as lágrimas, vendo meus amigos brincar no pasto de uma fazenda que tinha atrás do quintal de casa. Os que não gostavam de mim, ficavam me convidando pra brincar, só pra tirarem uma onda com minha cara e os poucos que gostavam, faziam uma rápida visita escondidos de minha mãe e ainda traziam alguma coisa. Eu morria de medo dela pegar e me bater com a varinha do pé de amora que tinha no nosso quintal. Às vezes, enquanto o pôr do sol não chegava, eu ficava olhando o pé de amora durante horas e queria destruir ele também. E eu só sabia chorar, eu queria apenas brincar, porque de uma certa forma, eu sentia que a infância um dia ia acabar. A partir daí eu comecei pedir pra Deus me levar antes de me tornar adulto. Tinha mudado de idéia, eu não sabia o que estava pedindo. Quando cresci um pouco mais, só pensava em me vingar e acabei fazendo mais cagadas. Um dia a polícia foi me buscar em casa. Era fim de tarde e minha mãe vinha chegando de um dia cansativo de trabalho. Ficou em pânico quando viu a cena. Depois de muito insistir, eles não me levaram. O que eu aprontei, fica pra uma outra história. Minha mãe percebeu também que não adiantava me deixar mais trancado, então ela resolveu mudar de cidade pra eu não ver mais meus poucos amigos. Fomos morar praticamente no meio do mato, numa pequena cidade do interior de São Paulo. Foi ai que tudo piorou, comecei sentir mais raiva, porque agora não estava mais preso no quarto, mas numa cidade vazia, inóspita e sem ter como sair de lá. Comecei pichar muros como todo adolescente idiota tentando se comunicar e um dia inventei de pichar o carro do delegado da cidade. Tive que ficar trancado em casa no meio do mato, sem por o pé pra fora durante meses, pois o único delegado daquele minúsculo lugar estava puto atrás do filho da puta que tinha feito aquilo no carro dele. Ninguém nunca soube quem fez a não ser dois amigos que estavam comigo naquela noite. Ele nunca me encontrou e eu parei de fazer essas besteiras e não por medo e nem por nada. Foi porque um dia vi minha mãe chorando num canto e tentando se comunicar com Deus em oração, pedindo pra Ele ajuda-la a se livrar da angústia que sentia por não conseguir se comunicar comigo e nem com ninguém, por não conseguir ser meu pai também. Eu nunca tive pai e ela devia se culpar por isso. Soube que ele foi assassinado. Nunca me interessou conhece-lo. A partir dai comecei entender um pouco as coisas. Neste dia eu a abracei e ela chorou no meu colo e eu rezei por ela bem baixinho. Não queria que ela percebesse de jeito nenhum. Eu tinha aprendido a me castigar.



Escrito por Pankada às 20h06
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De volta

Primeiro, problemas com o computador, não estava conseguindo. Segundo, entrei numa concentração ferrada de treino que há muito não entrava. Tive um mês pra isso. Consegui me inscrever pro campeonato brasileiro de jiu-jitsu e pra bancar me dispus a treinar muito. Evitei sair, dormir tarde, beber etc. Conciliar trabalho, com teatro e viagens e treino pesado não é nada fácil. Bom, a luta foi ontem (domingo 18 de maio), estava marcada para às 16h30, sendo que às 20h tinha uma apresentação da peça Lugar Onde o Peixe Pára em Limeira interior de São Paulo que fica há duas horas de carro daqui. O campeonato foi realizado por uma confederação brasileira bem desorganizada. Eram 17h40 e não tinham anunciado minha luta. Já tinha desistido, porque senão me atrasaria muito pra peça, sabendo que tinha uma porrada de coisas pra arrumar antes de entrar em cena. Desisti, treinamento do mês jogado fora. Bebi um litro de água, peguei minha mochila e sai. Quando pisei na porta de saída anunciaram minha luta. Eu já com o corpo frio, a cabeça em outro lugar e a barriga cheia de água, resolvi encarar. Resultado: mão esquerda quebrada. Minha colocação. Vocês já sabem né? Pelo menos cheguei em tempo para a peça.



Escrito por Pankada às 17h19
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A pior coisa que me aconteceu por esses dias...

continuação...

"Cara folgado... A mochila tem que passar primeiro sempre." Fingi que não ouvi, exatamente porque não estava num dos meus melhores dias, insistente ele continua: "Sempre tem um engraçadinho que quer ser diferente". Quando ele disse isso o sangue subiu pela cabeça, mas procurei me conter pra não fazer besteira maior e só retruquei, igual criança mesmo: "A mochila é minha e faço dela o que bem entender." Ficou me olhando feio durante uns 5 minutos. Até então não havia me encarado ainda. Não aguentei e perguntei o que foi? Nem respondeu e veio pra cima direto com um cruzado. Me esquivei e já emendei uma voadora no seu peito que o deixou caído ali com os olhos bem esbugalhados e ofegante olhando pra minha fuça com cara de bosta. A cagada é que do nada apareceu mais dois caras que vieram pra cima com tudo. Fui mais esperto e antes da porrada deles me acertar, dei dois socos no nariz de um e um chute giratório na orelha do outro. Ninguém ficou em pé e o ônibus todo se pôs contra mim. Eu só estava me defendo, poxa. Quando eu vi que o negócio ia esquentar pro meu lado, tentei fugir, por cima dos bancos pisando na cabeça de quem estava sentado. O ônibus tava em movimento e o cobrador logo percebeu que eu tinha gerado a desordem ali e quando eu estava pra saltar pela janela, ele conseguiu me segurar, mas provido de muita esperteza dei-lhe uma cotovelada no queixo que o nocauteou na hora. O motorista morfético que assistia tudo pelo retrovisor em silêncio, pra evitar que eu fugisse pisou fundo no acelerador. Irritado, caminhei sorrateiramente até ele e apliquei-lhe uma gravata, fazendo-o apagar e ai assumi a direção. Pra completar a minha sorte, logo a frente avisto uma barreira de carro da polícia, onde sou obrigado parar, pisando seco no freio, pra não fazer mais cagada. Todo mundo do ônibus veio parar na frente. Os policiais invadiram o busão armados até os dentes. Perguntavam apenas onde estavam os filhos das putas. E os filhos das putas dos passageiros, apontaram pra mim, sem nenhuma hesitação. Os gambé nem quiseram ouvir explicação nenhuma e vieram pra cima feito boi bravo, se não fosse um dos policiais gritar lá do fundo:"Achei os filhos das putas. Estão todos aqui no chão". Acho que eu teria rodado bem. Todos os lazarento dos passageiros que quiseram me foder, agora em silêncio voltaram seus olhares admirados pra mim e começaram aplaudir. Palhaçada!!! Prefiro nem comentar nada. O chefe da polícia perguntou meu nome, apertou minha mão e me levantou no ombro. Puta mico! E um bando de mico ovacionando atrás. Uma multidão já me esperava na porta do ônibus. Repórteres, câmeras, fotógrafos. Flashes daqui e dali e essa putaria toda que fazem quando acreditam que alguém é importante. Não acreditava. Fiquei feliz, me senti um herói, me chamaram de herói. Parece que fiz algo bacana pelo menos uma vez na vida. Quando a ficha começou cair tudo aquilo começou me encher o saco e pedi pra sair dali. Tenho um pouco de fobia social, sei lá. Comecei correr e um monte de gente veio atrás. Que merda. Não consegui nem ir pro treino. Tive que voltar pra casa. Descobriram onde eu morava e ficaram a madrugada toda gritando na minha janela. Mandei todo mundo a merda e ignorei-os, achando que não fosse acontecer nada. Os vizinhos se assustaram. Depois de toda a loucura, quando tudo pareceu mais calmo, deitei e descansei. Olhei discretamente pela janela e tinha uns peças dormindo sentados na minha porta. Se foda! Quando acordei... Tudo pareceu só um pesadelo, mas quando olhei la fora de novo, vi alguns sujeitos se levantando e saindo dali, resmungando. Fui pra cozinha peguei o café abri o jornal e o que vejo? Essa semana to fodido.



Escrito por Pankada às 14h34
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